Em sua carta ao XIII Congresso do Partido Comunista da URSS, que ficou conhecida como seu "testamento político", escrita em dezembro de 1922, o revolucionário marxista Vladimir Ilitch Lênin criticou duramente o secretário geral do partido Josef Stalin, inclusive solicitando sua substituição do cargo de secretário geral do Partido Comunista da URSS. Nessa mesma carta, Lênin também criticou Trotsky.
Vejamos o que dizia Lênin nessa carta:
"Me refiro à estabilidade como garantia contra a ruptura em um futuro próximo, e tenho a proposta de colocar aqui várias considerações de índole puramente pessoal. Creio que o fundamental no problema da estabilidade, desde este ponto de vista, são tais membros do CC como Stálin e Trotsky. As relações entre eles, a meu modo de ver, encerram mais da metade do perigo desta divisão que se poderia evitar, e a cujo objetivo deveria servir entre outras coisas, segundo meu critério, a ampliação do CC a 50 ou até 100 membros.
O camarada Stálin, tendo chegado ao Secretariado Geral, tem concentrado em suas mãos um poder enorme, e não estou seguro que sempre irá utilizá-lo com suficiente prudência. Por outro lado, o camarada Trotsky, segundo demonstra sua luta contra o CC em razão do problema do Comissariado do Povo de Vias de Comunicação, não se distingue apenas por sua grande capacidade. Pessoalmente, embora seja o homem mais capaz do atual CC, está demasiado ensoberbecido e atraído pelo aspecto puramente administrativo dos assuntos(1). Estas características de dois destacados dirigentes do atual CC podem levar sem querer-lo à ruptura, e se nosso Partido não toma medidas para impedir-lo, a divisão pode vir sem que se espere.
Não seguirei caracterizando aos demais membros do CC por suas características pessoais. Recordarei apenas que o episódio de Zinoviev e Kamenev em Outubro(2) não é, naturalmente, uma casualidade, e que se disto não se pode culpar pessoalmente, tão pouco a Trotsky pelo seu não bolchevismo.(3) (...)
Stálin é brusco demais, e este defeito, plenamente tolerável em nosso meio e entre nós, os comunistas, se coloca intolerável no cargo de Secretário Geral. Por isso proponho aos camaradas que pensem a forma de passar Stálin a outro posto e nomear a este cargo outro homem que se diferencie do camarada Stálin em todos os demais aspectos apenas por uma vantagem a saber: que seja mais tolerante, mais leal, mais correto e mais atento com os camaradas, menos caprichoso, etc. Esta circunstância pode parecer fútil tolice. Porém eu creio que, desde o ponto de vista de prevenir a divisão e desde o ponto de vista do que escrevi anteriormente sobre as relações entre Stálin e Trotsky, não é uma tolice, ou se trata de uma tolice que pode adquirir importância decisiva."
(trechos da Carta de Lênin ao XIII Congresso do Partido Comunista da URSS)
(1) Lênin, no seu Testamento Político, fala de Trotsky como "o homem mais capaz do presente Comitê Central", mas deplora suas tendências autoritárias (nas palavras de Lênin, "sua tendência a abordar as questões apenas pelo lado administrativo").
(2) Zinoviev e Kamenev colocaram-se contra a tentativa de insurreição que resultaria na Revolução de Outubro de 1917 nas instâncias do Partido Bolchevique.
(3) Até 1917 Trotsky não ingressara nas fileiras do Partido Bolchevique, e conservava profundas divergências com os mesmos.
O stalinismo foi a mais grave degeneração que o marxismo sofreu, e essa carta demonstra que Lênin havia percebido o caráter autoritário e desleal da personalidade de Stalin, alertando o partido quanto a isso, solicitando inclusive a substituição de Stalin do principal cargo do partido, por outra pessoa que fosse "mais tolerante, mais leal, mais correto e mais atento com os camaradas, menos caprichoso". Entretanto, o trotskismo também é uma degeneração, basta observar o sectarismo e o extremismo inconsequente dos trotskistas. E lógico, recordar que Trotsky defendia as mesmas políticas autoritárias que Stalin acabou promovendo a partir de 1928, como a militarização do trabalho e a estatização dos sindicatos.
E mais, quando Trotsky apesentou suas teses favoraveis a fusão dos sindicatos ao Estado, o revolucionário Vladimir I Lênin criticou essas teses, defendendo em seu lugar a Nova Política Economica, que felizmente foi aprovada pelos bolcheviques.
Portanto a critica de Lênin as posições autoritárias de Trotsky, são anteriores a critica a Stalin, realizada na carta escrita em dezembro de 1922.
"Trotsky foi o principal defensor da fusão dos sindicatos ao Estado e, inclusive, a sua militarização. Ele aplicou seus métodos "revolucionários" quando foi responsabilizado pela reorganização dos serviços de transporte. Assumindo o controle absoluto do Comitê Central de Transporte, decretou imediatamente "estado de emergência" nas ferrovias, destituiu os dirigentes eleitos dos sindicatos e colocou todos os operários sob lei marcial.
Em 16 de dezembro de 1919, Trotsky apresentou no Comitê Central do Partido Bolchevique a sua tese "Sobre a transição entre a guerra e a paz", na qual reafirmou a necessidade de militarização dos sindicatos russos. Ele defendeu novamente as suas posições no IX congresso do PCRb. Na ocasião afirmou ele: "As massas trabalhadoras não podem vaguear através da Rússia. Devem ser enviadas para aqui e para ali, nomeadas, comandadas exatamente como soldados (...) O trabalho obrigatório deve atingir a sua maior intensidade durante a transição do capitalismo para o socialismo (...) É preciso formar patrulhas punitivas e pôr em campos de concentração os que desertam do trabalho". E concluiu: "O Estado Operário possui normalmente o direito de forçar qualquer cidadão a fazer qualquer trabalho em qualquer local que o Estado escolha."
Contra as posições autoritárias de Trotsky, Lênin escreveu os artigos "Sobre os Sindicatos, o momento atual e os erros de Trotsky" e "Mais uma vez sobre os sindicatos, o momento atual e os erros dos camaradas Trotsky e Bukharin". Afirmou ele: "os sindicatos são uma organização da classe dirigente, dominante e governante. Mas não são uma organização estatal, não são uma organização coercitiva, são uma organização educadora, uma organização que atrai e instrui, são uma escola, escola de governo, escola de administração, escola de comunismo". Portanto, não poderiam ser transformados em quartel ou prisão.
Lênin negou a tese trotskista de que a defesa dos interesses materiais e espirituais da classe operária não deveria ser de incumbência dos sindicatos em um Estado operário. Para ele isto era um grave erro. Afirmou Lênin: "O camarada Trotsky fala de 'Estado operário'. Permitam-me dizer que isto é pura abstração (...) comete-se um erro evidente quando se diz: Para que e ante quem defender a classe operária, se não há burguesia e o Estado é operário? Não se trata de um Estado completamente operário, aí está o xis do problema (...) Em nosso país, o Estado não é, na realidade, operário, e sim operário e camponês (...) Porém há mais alguma coisa (...) nosso Estado é operário com uma deformação burocrática (...) Pois bem, será que diante desse tipo de Estado (...) nada têm os sindicatos a defender? Pode-se dispensá-lo na defesa dos interesses materiais e espirituais do proletariado organizado em sua totalidade? Essa seria uma opinião completamente errada do ponto de vista teórico (...) Nosso Estado de hoje é tal que o proletariado organizado em sua totalidade deve defender-se, e nós devemos utilizar estas organizações operárias para defender os operários em face de seu Estado e para que os operários defendam nosso Estado".
Lênin criticou também a pretensão de Trotsky em transformar o modelo de organização das ferrovias durante a guerra civil em um modelo de organização dos sindicatos durante todo o período de construção do socialismo. Escreveu ele: "Na resolução do I Congresso do PC de Toda Rússia, em abril de 1920, dizia que a Seção Política Geral do Comissário do Povo de Vias de Comunicação era criada na qualidade de instituição 'temporária', e que 'no prazo mais curto possível' era necessário passar à normalização da situação. Em setembro, lia-se, 'passemos à situação normal'". Continuou: "em que consistiu o erro da Seção política Geral do Comissariado do Povo de Vias de Comunicações e do Comitê Central do Sindicato de transporte? (...) Seu erro foi não saber passar, em tempo e sem conflitos, segundo exigia o IX Congresso do PCR, para um trabalho sindical normal."
Lênin também viu com reservas a proposta de se utilizar, como método permanente, a indicação de dirigentes sindicais pelos órgãos superiores do Partido e do Estado soviético. Concluiu: "A organização dos sindicatos a partir de cima seria absolutamente ineficaz. Os métodos de uma democracia operária, severamente restringidos nos três anos da mais selvagem guerra civil, devem ser restabelecidos, em primeira instância e na mais ampla escala possível, no movimento sindical. É necessário aos órgãos dirigentes dos sindicatos serem, na realidade dos fatos, constituídos por eleições e sobre uma ampla base"".
(Augusto César Buonicore; em "Lênin, os sindicatos e o socialismo")
Por isso afirmo que trotskismo e stalinismo são "farinha do mesmo saco". A esquerda deve abandonar essa herança e resgatar o melhor do pensamento marxista, que na minha opinião pode ser encontrado em Lênin, Rosa Luxemburgo, Antonio Gramsci, Luckacs, e claro, nos originais de Marx e Engels.

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